Posts com tag “Katia Rodrigues de Almeida Secches

VIVÊNCIAS . OS ARQUÉTIPOS DA ALMA HUMANA

Jardim do Paraíso - (1410-1420) técnica mista em madeira, (26.3 x 33.4)cm Städel Museum, Frankfurt

Entre os espaços sagrados, o inferno e o paraíso são os arquétipos mais presentes na alma humana. O jardim sempre foi associado ao paraíso. Em termos bíblicos, o paraíso é o primeiro jardim do homem. Lugar onde natureza e o ser humano se reconhecem.

A natureza se mostra gentil e generosa, a intervenção do homem bela e sábia. Imagens do jardim do paraíso nos são reveladas de modo magnífico através das obras dos pintores de paisagem. As diferentes feições que o jardim do paraíso assume ao longo da história revelam a transformação da alma humana.

Os arquétipos são atemporais, a alma humana, contudo, se molda à sua época.

Os manuscritos iluministas da idade média revelam as primeiras cenas idealizadas do paraíso. São imagens ricas em simbolismos, destinadas a inspirar devoção e fé.

Esse pequeno painel de madeira foi pintado por um artista alemão conhecido apenas como Upper Rhenish Master (Mestre do Alto Reno) provavelmente entre 1410 e 1420.

O jardim do paraíso na idade média é atemporal, todas as espécies vegetais florescem e frutificam ao mesmo tempo. Separado por muros da maldade do mundo, ali habitam serenamente a Virgem Maria, o menino Jesus, anjos e santos. O Arcanjo Micael traz o demônio submisso, acorrentado aos seus pés. São Jorge aparece sentado ao lado de um dragão humilhado e inofensivo, domesticado como um cão. O mal não é extinto do paraíso, mas subjugado ao poder divino.

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PROJETOS . PISOS VIVOS . PARTE 1

Pisos externos executados diretamente sobre o solo respiram, trocam ar, água e energia com o ambiente. Argamassas de assentamento impermeabilizam o terreno e nos impedem de sentir a terra viva sob os pés.

Se além do contato direto com a terra, deixarmos frestas entre os elementos que compõem o piso, a movimentação natural do terreno encontra espaço para se acomodar. Os espaçamentos atuam como juntas de dilatação e evitam rachaduras na superfície. Gramíneas, musgos e pequenas flores crescem entre as peças e ajudam a preservar o delicado equilíbrio ecológico de minhocas, pequenos insetos e a vegetação.

Pisos que absorvem água e permitem a evaporação, que revelam a presença humana na acomodação de suas peças pelo caminhar, que acolhem a presença da micro fauna e flora, revelam a passagem do tempo na paisagem, os ritmos da natureza.

Quando o fluxo natural de energia entre a atmosfera e o solo é preservado, os pisos mantêm-se vivos e o caminhar espontâneo.


INTERNA & EXTERNA . DIÁRIO DE VIAGEM . VALE DOURO, NORTE DE PORTUGAL

A proximidade da colheita das uvas na região do Douro, norte de Portugal, envolve a paisagem do vale em aromas e esperança.

Navegamos pelo Rio Douro em uma pequena embarcação portuguesa construída em 1963, inteiramente em madeira. As encostas cultivadas que margeiam o rio mergulham abruptamente na água em vários trechos e parecem encontrar-se a grande profundidade, no leito em cunha.

Os vinhedos carregados de uvas maduras ondulam interminavelmente pelas encostas do vale e suavizam a verticalidade muitas vezes trágica da paisagem. A beleza, contudo, não esconde o trabalho insano do homem em tornar o solo fértil e próspero. As águas convulsivas do Douro, navegáveis.

As vinhas e oliveiras enraízam em patamares estreitos, arrimados em pedras, rendendo-se à proposta humana de esculpir a paisagem. Acostumados que estamos a ver a brutalidade humana exercendo seu domínio sobre a terra, é sublime ver a comunhão entre o homem e a natureza.


LENTES . O OLHAR VOLTADO PARA CIMA

Explorar o olhar nos permite perceber formas e proporções novas. Estar atento ao que se passa no nosso interior diante dos novos horizontes amplia a experiência. Ao conduzir o olhar para o alto confrontamos a altura do corpo humano com a do espaço construído. O olhar capta a magnitude da altura dos edifícios, absorve a luz que as frestas entre construções deixam escapar. Mas ainda que o azul do céu reflita a profundidade do cosmos, a concretude inerte dos altos volumes construídos parece oprimir a alma humana.

Uma sensação diferente, porém, a alma experimenta quando confronta as alturas do corpo humano e a das árvores em um agrupamento. A presença ativa da vida circulando nos troncos da vegetação permite que a nossa alma vivencie a altura de modo sublime.



LIVRO


“As primeiras páginas são biográficas…” O Ignácio propôs que o nosso livro começasse pela minha história. Foi assim que percebi que a minha memória flui de paisagem em paisagem. Da infância, lembro os horizontes próximos dos meus olhos de criança e o chão. Guardo primeiramente a respiração do mar. O recolhimento das águas e o avanço das ondas que engoliam meus pés. Caminhar de mãos dadas com meus pais à beira mar me protegia do sobressalto das ondas e me assegurava conforto para sentir o ritmo da paisagem.